Investindo em Aspecto e a Gestão de Pontos de Destino

A manutenção pode evitar imprevistos

Já vi, em grupos gringos e nacionais, jogadores e narradores questionando o funcionamento dos aspectos; como eles sempre precisam “ativar” (ou Invocar) um aspecto para receber um benefício pelo qual, aparentemente, seu personagem é nato.

Ou seja, muitos argumentam que, por exemplo, um “Caçador das montanhas gélidas” sempre sabe como ser um caçador e sobrevivente em áreas frias; até que acabem os pontos de destino. O que acontece com o aspecto, quando não possuímos mais recursos para invocá-lo?
Acontece muita coisa; não só com o personagem, mas com o próprio ambiente ao redor. Muitos esquecem que, o conhecimento de um personagem não é limitado apenas pelo que ele sabe, mas pelo que o rodeia e lhe fornece a oportunidade de ser bom no que ele é.

Se você usa as regras padrão do Fate Básico e FAE, onde é necessário gastar um ponto de destino para invocar e receber o benefício por um aspecto, tente pensar que não é o personagem que se tornou incapaz de exercer sua função ou especialidade, mas que talvez o momento não seja favorável.

A nevasca pode ter confundido o caçador, pois nunca houve uma frente fria como esta. A região pode ser diferente em fauna e flora ou a própria natureza dificulta, com fortes rajadas de ventos, talvez as flechas tenham acabado ou ele não se encontra em uma área tão favorável à caça e busca de alimento.
Um outro exemplo é Guerreiro da Ordem da Cavalaria que percebe ter esquecido de afiar a espada, que a armadura pode ter folgado, o elmo está solto em sua cabeça e dificulta um pouco a visão. Ou seja, não é que o personagem esqueceu como ser um guerreiro, caçador ou policial, é que o momento, por qualquer razão, pode não ser propício à ação deseja.

Quando nos referimos a aspectos na cena ou de outros personagens, o mesmo se aplica. Quem sabe as caixas estejam em frangalhos e não sirvam mais como Ponto de proteção ou o fogo já se alastrou demais na área onde está ou para a ação que deseja realizar.

A situação é a mesma: o cenário e a história são dinâmicos; tudo muda com frequência, e isso pode representar aquele momento azarento e embaraçoso onde, apesar de você ser muito bom em algo, as coisas ao seu redor não lhe ajudam para tal.

Pode ser que agora você precise ir um pouco mais a fundo na floresta e busca de alimento ou abrigo (forçando um de seus aspectos ou da cena), ou precise se arriscar para conseguir mais munição ou trocar de arma (forçando um de seus aspectos ou da cena), arriscar uma manobra ousada no meio do fogo cruzado (forçando um de seus aspectos ou da cena), pode se arriscar a dialogar com um adversário (forçando um de seus aspectos ou da cena), ou chutar o balde e meter a cara a tapa (forçando um de seus aspectos ou da cena), você precisa se concentrar mais e para isso se expõe (forçando um de seus aspecto ou da cena). Todo herói em filmes, séries, quadrinhos e literatura têm seus altos e baixos, e em geral, eles saem dos momentos baixos com ousadia e coragem.

Tudo isso, na verdade, pode até mesmo criar aspectos de situação que demonstre a incapacidade dos personagens atuarem da forma como esperavam, fornecendo uma boa chance para forçar tais aspectos. Talvez o guerreiro ganhe algum aspecto, como Deveria ter afiado a lâmina, Me lembrem de guardar algumas flechas extras da próxima vez!, E essa febre que não passa!, Droga de arma pesada que machuca o pulso, e muitas outras ideias, que no momento em que entram em jogo, fornecem oportunidades para reviravoltas, ou para que os jogadores forcem eles, recebam pontos de destino e os invistam na próxima jogada (“A lâmina não está tão afiada, mas que tal um golpe com a chapa da lâmina”  ou Lá! Aquelas árvores são frutíferas, e alguns animais podem rondar a região. Minha janta está garantida“).

A maior questão de tudo é: sempre precisamos dar nome aos bois. Ou seja, se eu tenho um número na planilha de meu personagem, o que aquele número significa dentro da história, narrativamente, no universo de jogo?

Isso não acontece só com aspectos; um outro exemplo é a perícia Recursos: o que significa, em seu mundo de jogo, um personagem com recursos Bom +3? Será que ele é rico ou simplesmente sabe administrar seus recursos (talvez as duas coisas); e como contabilizar a riqueza e redução por gasto? É preciso parar para pensar sobre isso, quando decide iniciar uma mesa. O que significam os números?
Se você é tão sensível a esses detalhes e isso lhe incomoda em jogo, ou talvez alguns jogadores de seu grupo, eis uma regra alternativa que uso em minhas mesas, e que pode lhe ajudar a trabalhar os aspectos de outra forma:

Nem Sempre o Momento é Favorável

Investindo em um Aspecto

Para representar o conhecimento continuo de um personagem, ou o uso constante de um aspecto que demore em cena, e como ele pode lidar com as intempéries que surgem em seu caminho, eu substituo a regra de invocar aspectos por investir.
Sempre que um personagem se encontra em uma situação em que um aspecto se aplica, ele ganha automaticamente um bônus de +1 em uma rolagem, por esse aspecto. Ele pode aplicar mais de um aspecto dessa maneira, mas o bônus máximo é Razoável +2 (ou seja, ele só pode aplicar até dois aspectos dessa forma), acima disso, o jogador precisa gastar um ponto de destino para cada aspecto que invocar, na intenção de melhorar sua jogada ou para rolar os dados novamente.

E não basta dizer “Eita! Acho que esse aspecto se aplica!“, tem que explicar. Porque ele se aplica? Quais as maneiras que ele pode lhe ser útil nessa situação? Uma boa explicação pode incluir até detalhes da história do personagem, que revelam como ele aprendeu a se livrar daquele tipo de situação em particular.


Quando aplica o aspecto, o jogador tem a opção de gastar pontos de destino para investir no aspecto. Quando faz isso, ele amplia o bônus de Regular +1 para Bom +3 (ou seja, um ponto de destino vale um bônus de +2) ou então, rola os dados novamente.

Uma opção interessante é o narrador permitir que, ao gastar um ponto de destino, um jogador possa alterar o resultado de dois dados na rolagem. Isso se torna, de certa forma, tão interessante quanto rolar os dados novamente. Em uma rerolagem, o jogador pode tirar um resultado ainda pior, enquanto que, na alteração, ele pode tornar a jogar dele menos ruim (ou mesmo muito boa).

E vocês, lidam de alguma forma especial com os aspectos na mesa de jogo?

Fábio Silva

Amante de jogos de mesa, violino e jazz. Brinca de escrever e desenhar numa casinha do interior, com sua esposa e muitos gatos (são muitos mesmo).

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